terça-feira, 1 de setembro de 2015

Compreender para ser justo

Muito se falou sobre Ética, Justiça e transformações. Uns dizem que sabem o que significam. Outros pensam que sabem. Mas a maioria, incluindo os que dizem e os que pensam saber, nada sabe. Ficam perpetuando o que veio antes da sistematização do pensamento racional acerca do surgimento de tudo. E se valem de algo que todos levam em consideração diante do que, à primeira análise, surge como inexplicável. O senso comum é, sem dúvida, a alternativa mais viável para quem não quer se dá ao trabalho de pensar. De raciocinar. De sair das trevas e encarar a luz.

Sair da escuridão não é fácil. Requer desprendimento. Renúncia. Afastar-se do que é fácil. Sim, pois pensar é difícil. E não é todo mundo que consegue se adaptar ao brilho da luz. Embora saibamos que somente a luz leva ao desenvolvimento como um todo, seja econômico, político, social, filosófico e intelectual. Sim, estamos falando do conhecimento.

Todos dizem que conhecem alguma coisa. E os que tentam corrigir quem diz que sabe e conhece algo incorre no mesmo erro. E isso implica dizer que os que corrigem pela metade são iguais aos que nada sabem. E os que dizem nada saber são, verdadeiramente, mais sábios do que os que externam, pela metade, algum tipo de saber. Sócrates já ensinava isso perfeitamente bem. Ou vocês não conhecem a famosa frase “Só sei que nada sei”?

Antes do pensamento racional tomar conta do mundo, este era compreendido por meio de mitos. A mitologia grega impregnava tudo e a todos. Como se o homem não pudesse escolher algum caminho e este deveria ser indicado pelos deuses. Zeus, Apolo, Hera, Afrodite e todos os que moravam no Olimpo ditavam as regras. Surgiram histórias e estórias sobre isso. Alguns filmes mostram tal realidade perfeitamente, como “A Guerra de Tróia”, “Fúria de Titãs” e tantos outros.

E hoje, mesmo diante da Ciência, que segue a tríade “Tese”, “Antítese” e “Síntese”, de alguma maneira todos nós nos deixamos levar por algum pensamento que não seja o nosso. E, talvez, a explicação para isso venha da tal experiência de vida dos mais velhos. É vem verdade que precisamos respeitar a posição dos que nasceram antes. Mas isso não significa dizer que a experiência deles sirva como modelo. Apenas indica que eles, provavelmente, tenham passado por situações similares às que podemos viver. Mas longe está a possibilidade de tudo ser da mesma maneira.

E compreender essa particularidade do viver humano é complicado. Tanto para quem tenta direcionar algum ensinamento vivenciado com base no senso comum quanto para quem não quer se deixar influenciar por experiências vividas à base do empirismo. Obviamente que este é um dos pilares do conhecimento e faz parte de tudo o que o homem conhece hoje. E é inerente à própria Ciência. Faz parte da pesquisa. Aliás, é a parte inicial desta.

Mas para chegar ao estágio empírico, é preciso saber o que antecedeu esta fase. E é necessário voltar no tempo. Em um período em que o homem ainda vivia sob o comando do mito, dos deuses, e se deixava guiar por algo que ele não via e que punia se não fosse obedecido.

Os deuses do Olimpo mostravam ao homem o que este deveria fazer, sobre como se comportar e o quais ações deveriam ser executadas para evitar algum mal à humanidade. Mas se formos pensar direito, seria inconcebível compreender que algum deus – Zeus, Apolo ou qualquer outro – orientasse o que deveria ser feito para se ter alguma felicidade. Sim, pois esta, a felicidade, dependia exclusivamente da vontade deles, dos moradores do Olimpo. E, assim, chega-se a conclusão de que o que os homens fariam, em uma provável verdade, seria concretizar algo que eles queriam fazer e colocavam tal objetivo como sendo um aviso de seres poderosos.

Atualmente, analisando o quadro do passado, difícil assimilar a teoria de que algum ser com asas nos pés teria contato com qualquer ser humano. Ou que um outro ser desceria à terra na figura de um raio ou de uma ave para fazer sexo com mulheres e criaria, assim, os semideuses, como Hércules, Perseu e outros. Ou ainda que teria existido o Minotauro, ser que tem corpo de homem  e cabeça de touro. Ou também que as gárgulas e demais seres inerentes à Grécia Antiga.

Quando se é jovem, assistir a filmes que contenham tais figuras míticas é um deleite para a imaginação. Chega-se ao ápice e vislumbra-se uma realidade totalmente fora da que conhecemos e, talvez, imagina-se um cenário em que homens e deuses entrariam em conflito em nome da liberdade. Sim, pois todos buscam ser livres. E, de alguma maneira, travamos batalhas para atingir tal objetivo. A guerra travada no filme “Fúria de Titãs”, por exemplo, evidencia isso: que o homem não quer mais seguir o que deuses querem e busca tão sonhada liberdade. E hoje não seria diferente. Mas isso será visto mais adiante.

Tudo isso em nome de algo que era visto, e ainda é, como sendo a coisa certa. Mas, afinal, como se chega a isso? Como se faz algo certo, mesmo diante de tantos caminhos? Como ser livre e feliz em um mundo repleto de alternativas? As respostas parecem ser dúbias e várias. Daí, em alguns aspectos, o homem busca o que ele quer em livros religiosos. Em parábolas. Em escritos que são atribuídos a Deus. E recorre-se aqui a algo divino. Tal qual acontecia na Grécia Antiga. Mas não se vive mais naquele tempo e não se poderia, em teoria, deixar-se guiar por alguma coisa que não fosse atual. Mas o que poderia ser atual? Eis a questão.

Alguns teóricos vislumbram a possibilidade de se obter a felicidade e a liberdade seguindo um caminho único. O tal caminho estreito e espinhoso que surge na Bíblia deixa entender que se trata de uma vida baseada no sofrimento e na negação dos prazeres. Mas aí vem outra questão: negando os prazeres e com um viver regrado nas privações, estaria o homem seguindo uma linha à liberdade? Ser livre é seguir ensinamentos religiosos?

Bom, até certo ponto alguns podem achar que sim. Contudo, existe algo que não poderia dar certo e o homem estaria sequenciando a teoria de Platão acerca do Mundo das Ideias. Tal teoria seria concebível no mundo atual? A Ética, o fazer a coisa certa, estaria ligada à Razão? A partir de qual momento a junção destas seria responsável à garantia de liberdade e felicidade do homem? E como entra o Estado nessa união? Defende-se aqui a ideia de Hegel, de que o homem só seria livre e feliz no Estado.

Ser justo é fazer Justiça. E, para compreender esse processo e aceitá-lo de maneira racional é preciso estar inserido em um contexto social. Somente com o viver na sociedade será possível pensar ou vislumbrar alguma possibilidade de Justiça. Fosse diferente, viveríamos no Estado de Natureza. Mas esse tempo já passou. As cidades se organizaram e leis foram criadas. E é preciso segui-las. Elas, as leis, orientam a tudo e a todos. Faz parte de todo e qualquer ordenamento social e jurídico.

Para atingir alguma Justiça é preciso, necessariamente, que se exponha algo que não seja justo. A lei surge, diante disso, para reparar algum dano causado a alguém. E não faz sentido algum buscar a Justiça para corrigir o que estaria correto. E é aí que entra a questão: a lei realmente fará Justiça?

Diz-se que a lei pode não ser justa e que o papel do representante da Justiça seria garantir o equilíbrio. Para tanto, este homem precisaria ser justo. Assim ele fará, necessariamente, justiça.

Mas é preciso entender. Compreender. A leitura das leis, por si só, não garante nenhum entendimento. É necessário entender o seu significado. Daí a necessidade de se buscar a Filosofia e a Sociologia para chegar a algo ainda novo, que é a Hermenêutica. Como saber se aquilo que se pleiteia é realmente a coisa certa? Émile Durkeim vai defender a teoria do Fato Social, que seria a “coisa” em comum. Mas tal questão é refutada e surge Max Weber para contrapor, afirmando que a “coisa” não poderia ser a mesma para todo mundo.

E surge daí a problemática envolvendo Lei e Justiça. Uns apontam verdade em artigos e súmulas. Outros veem, nos mesmos artigos e súmulas, outra verdade. E o equilíbrio dessa confusão envolve, por consequência, o homem justo. E, assim acontecendo, se teria o real significado da Justiça. E a Hermenêutica surge como algo facilitador no processo: é preciso conhecer os símbolos (no caso, as leis). Conhecendo-as será possível interpretá-las. E interpretando se chegará à explicação, que é a verdade que se quer. A Justiça que se busca.

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