quinta-feira, 9 de julho de 2015

Nordestino, negro, cristão e de origem humilde

Por Francisco Carlos*

Como é que pode uma pessoa ser discriminada em uma situação e, noutra, ser ela mesma intolerante ou desrespeitosa?

Os CRISTÃOS, extremamente perseguidos por pagãos romanos, tinham que praticar sua fé nas catacumbas pois, se pegos, eram jogados aos leões para servir de diversão.

Esses cristãos, tornaram-se católicos e perseguiram e assassinaram cristãos protestantes, negros, "bruxas" etc. Os protestantes, quando tiveram oportunidade e motivos (?), assassinaram católicos. Tudo amplamente registrado em ampla literatura.

Os NEGROS foram, e ainda são, uma das etnias mais perseguidas e humilhadas de toda a história da humanidade. Creio que não há exemplo maior, de como a cor da pele determina a vida e a morte, o sofrimento, a humilhação, as restrições e falta de oportunidades.

No entanto, no Nordeste brasileiro, mais de 600 escravos eram donos de escravos (João José Reis, UFBA). O próprio Zumbi de Palmares, símbolo da resistência e emancipação negra no Brasil, era proprietário de escravos. (Leandro Narloch, no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil) (1).

Krueger (1990) publicou biografia de Mahommah Baquaqua, negro muçulmano trazido para o Brasil em 1845, que viajou par o Estados Unidos para entregar sacas de café de seu senhor e fugiu. Esse "fujão" relatou: “Conheci vários tipos de igreja aqui. Algumas delas pregam o evangelho, mas não se preocupam com o pobre escravo, não oram por eles, e acreditam que a escravidão é boa. Eles são cristãos, Senhor! Não posso acreditar jamais (...) Acredito que o Cristão ore pelo infeliz escravo e pregue contra a escravidão” (2).

Fico impressionado ao perceber que existe CRISTÃO que apresenta sinais de discriminação contra negros, pobres, nordestinos, gays ou até em relação há outros cristãos por questões de "convicção" religiosa.

Fico impressionado ao perceber que existe NEGRO, "pardo" ou branco com ascendência negra, que discrimina pobres, nordestinos ou gays. Há cristão negro (ou "pardo"), intolerante com as religiões afro-brasileiras.

Me impressiona o fato de existir BRANCO, natural dos estados do sul e sudeste brasileiro, discriminado na cristã América do Norte por ser latino, que se permite discriminar nordestinos.
Me impressiona o fato de existir GAY que discrimina pobres, nordestinos e negros ou demonstra desrespeito e intolerância aos cristãos, por suas crenças e modo de vida.

Fico impressionado ao perceber que existe europeu branco e JUDEU (outras das mais perseguidas nações da história), que discrimina palestinos.

Os exemplos e variações são quase infindáveis. Não vale a pena se alongar.

Me sinto no dever de refletir sobre (in)tolerância e (des)respeito à liberdade e à cidadania, pois, eu mesmo, como nordestino, negro, cristão e de origem humilde, também tenho minhas "convicções".

Alerto que não vou deixar (sem resistência) que outros invadam minhas convicções e destruam minha visão de mundo. Tenho, então, minhas próprias demonstrações de intolerância ou até discriminação.

Posso me defender dizendo que se trata da formação cristã da qual não abro mão, da minha ideologia de classe (ou seja, a forma como defendo meus privilégios na sociedade). A visão própria de mundo sempre parece ser a melhor para todos, mesmo que a história esteja repleta desse tipo de erro.

Às vezes, por qualquer motivo, tememos exumar nossas "razões". Mas, estou tentando entender. Estou buscando ajustar meu discurso, minha postura e as ideias que defendo na sociedade, na família, na igreja e entre meus amigos.

Não tenho a fórmula certa. Mas, seja qual for a minha posição política, religiosa, étnica ou social, sinto que preciso e devo ser tolerante, preciso e devo ser respeitoso. Preciso e devo contribuir para que as pessoas encontrem formas para exercer seu modo de vida, sem pretender impor essa condição aos outros.

*É professor da UERN e vereador de Mossoró

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